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A era em que a ignorância se orgulha de ser ignorante
| CRISTIANE LANG (*) / CAMPO GRANDE NEWS
Talvez estejamos vivendo uma das épocas mais curiosas da história: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão grande a disposição de algumas pessoas para não saber. Não se trata mais daquela ignorância que nasce da falta de oportunidade, do isolamento, da ausência de estudo ou simplesmente do fato de que ninguém consegue conhecer tudo. Essa é uma ignorância humana, inevitável e até saudável. Existe uma ignorância muito diferente acontecendo diante dos nossos olhos: aquela que sabe que poderia aprender, mas não quer; que encontra informação, mas a rejeita; que diante de uma evidência prefere a própria convicção; que transforma opinião em verdade e desconhecimento em motivo de orgulho. É a ignorância por escolha, talvez a forma mais perigosa de ignorância porque já não existe nela a humildade de quem não sabe, mas a arrogância de quem acredita que não precisa saber.
Valter Hugo Mãe vem justamente provocando essa discussão em seu romance O Século dos Imbecis. O escritor parte de uma contradição que parece cada vez mais evidente: vivemos cercados por informação, com possibilidades extraordinárias de acesso ao conhecimento, mas isso não significa que estejamos nos tornando mais sábios. Ao contrário. Para ele, a questão começa a ficar grave quando a ignorância deixa de ser uma condição provisória e passa a ser glorificada. Em entrevista recente, Mãe foi ainda mais direto ao afirmar que “a estupidez nasce na glorificação da ignorância': todos somos ignorantes em alguma medida, porque saber também significa reconhecer aquilo que ainda falta aprender; o problema surge quando a ignorância ganha orgulho de si mesma e tenta se impor ao conhecimento.
É exatamente aí que mora o problema.
Não saber não é um defeito moral. Não conhecer determinado assunto é absolutamente normal. Eu posso não saber matemática avançada, você pode não saber história medieval, outra pessoa pode não conhecer medicina, outra pode nunca ter lido determinado escritor. A ignorância, nesse sentido, é apenas o território imenso daquilo que ainda não sabemos. E ninguém deveria sentir vergonha disso. O próprio Valter Hugo Mãe já falou sobre a própria ignorância com uma humildade que é justamente o contrário daquilo que critica: reconhece que morrerá ignorante em relação a inúmeras coisas e que o problema não é não saber, mas perder a disposição de aprender.
Existe uma diferença enorme entre dizer “eu não sei' e dizer “eu não quero saber'. A primeira frase abre uma porta. A segunda fecha. “Eu não sei' contém curiosidade. “Eu não quero saber' contém resistência.
A primeira reconhece um limite. A segunda transforma o limite em identidade.
É por isso que o ignorante por opção é tão difícil de enfrentar. Ele não está simplesmente desinformado. Ele está emocionalmente comprometido com a própria desinformação. Não quer descobrir se está errado porque sua certeza lhe oferece uma sensação de segurança. Não quer investigar porque investigar pode obrigá-lo a abandonar uma crença. Não quer ouvir porque ouvir significa admitir a possibilidade de que outra pessoa saiba mais. E algumas pessoas suportam quase tudo, menos a ideia de que podem estar equivocadas.
Vivemos uma época em que a dúvida passou a parecer fraqueza. É preciso ter opinião sobre tudo. É preciso saber imediatamente de que lado estamos. É preciso responder antes de compreender. É preciso comentar antes de ler. É preciso julgar antes de conhecer. E, principalmente, é preciso parecer seguro. Talvez por isso tantas pessoas confundam convicção com conhecimento.
Uma pessoa pode ter certeza absoluta e estar completamente errada. A certeza não é uma prova. A convicção não é uma evidência. O tom de voz não transforma uma opinião em fato. A quantidade de vezes que uma mentira é repetida não a transforma em verdade. E o número de pessoas que acreditam em alguma coisa também não determina se ela é verdadeira.
Ainda assim, assistimos diariamente à construção de pequenas verdades particulares que não admitem contestação. “Eu penso assim' passou a significar, para algumas pessoas, “portanto é assim'. “Na minha opinião' tornou-se uma espécie de salvo-conduto para afirmações que não resistiriam a cinco minutos de investigação. E “eu tenho direito à minha opinião' passou a ser utilizado como se significasse “ninguém tem o direito de me dizer que estou errado'.
Temos, evidentemente, direito às nossas opiniões. Mas não temos direito de transformar qualquer opinião em fato.
Podemos acreditar que um livro é maravilhoso. Podemos achar outro insuportável. Podemos gostar de determinada comida, de determinada música, de determinada maneira de viver. Tudo isso pertence ao campo da experiência subjetiva. Mas existem fatos que não se tornam relativos porque alguém decidiu não gostar deles. Existem acontecimentos históricos, evidências, pesquisas, documentos, dados e conhecimentos acumulados que podem e devem ser questionados, mas não podem ser simplesmente descartados porque não combinam com aquilo que gostaríamos de acreditar. A inteligência não está em nunca mudar de ideia. Está justamente na capacidade de mudá-la quando a realidade exige. Isso parece óbvio, mas tornou-se raro.
Há pessoas que preferem permanecer erradas a admitir que alguém estava certo. E esse é um dos comportamentos intelectualmente mais pobres que podemos desenvolver. Porque, quando a necessidade de ter razão se torna maior do que a necessidade de compreender, o pensamento morre.
Valter Hugo Mãe critica justamente esse fenômeno contemporâneo: a informação tornou-se abundante, mas isso não significa que ela esteja sendo transformada em conhecimento. Em uma sociedade em que carregamos praticamente uma biblioteca no bolso, podemos saber menos porque passamos a consumir informação de maneira passiva, sem reflexão, sem elaboração, sem responsabilidade. O escritor chama atenção para esse paradoxo: temos acesso a tudo, mas isso não garante que estejamos realmente interessados em conhecer.
Talvez seja essa uma das grandes tragédias do nosso tempo: estamos confundindo estar informado com compreender. Receber uma informação não é conhecê-la. Ler uma manchete não é entender um assunto. Assistir a um vídeo de dois minutos não transforma ninguém em especialista. Encontrar uma pessoa na internet que concorda conosco não comprova que estamos certos. E ter um celular cheio de respostas não significa possuir pensamento crítico.
A tecnologia nos deu acesso extraordinário ao conhecimento, mas não conseguiu produzir em nós aquilo que nenhuma máquina pode produzir: curiosidade, discernimento, capacidade de dúvida, disposição para estudar e coragem para reconhecer o erro.
Porque aprender é, em alguma medida, aceitar ser desmontado.
Toda aprendizagem verdadeira ameaça alguma certeza anterior. Quando aprendemos história, percebemos que algumas coisas que nos contaram eram simplificações. Quando estudamos ciência, descobrimos que aquilo que parecia óbvio pode ser muito mais complexo. Quando conhecemos outras culturas, percebemos que muitos dos nossos costumes não são verdades universais, apenas costumes. Quando amadurecemos, percebemos que algumas das convicções que tínhamos aos vinte anos já não cabem na pessoa que somos aos cinquenta. Isso deveria ser motivo de celebração. Mas há quem interprete mudança como fraqueza. Há quem considere admitir um erro uma humilhação. Há quem prefira permanecer preso a uma ideia ruim apenas para não dar ao outro o prazer de ter razão. E assim a ignorância se torna uma espécie de orgulho defensivo. É muito mais confortável dizer “não acredito nisso' do que investigar. É mais confortável dizer “sempre foi assim' do que perguntar por quê. É mais confortável repetir aquilo que ouvimos durante toda a vida do que descobrir que fomos ensinados a acreditar em coisas equivocadas. É mais confortável ter inimigos do que ter dúvidas. Porque a dúvida exige trabalho. A certeza absoluta, não. A certeza absoluta é preguiçosa. Ela não pesquisa, não escuta, não compara, não pondera. Ela simplesmente decreta.
E talvez por isso os discursos mais simplistas encontrem tanta facilidade para circular. A realidade é complexa, mas a ignorância oferece respostas rápidas. A realidade diz “depende'. A ignorância diz “sempre'. A realidade admite exceções. A ignorância precisa de regras universais. A realidade apresenta contradições. A ignorância precisa de vilões e mocinhos. É muito mais fácil acreditar que tudo é simples.
É muito mais difícil aceitar que o mundo não cabe numa frase.
O problema é que pessoas que acreditam possuir todas as respostas tornam-se perigosas quando passam a querer decidir a vida dos outros. A ignorância deixa de ser apenas um problema individual quando começa a orientar escolhas coletivas. Valter Hugo Mãe é particularmente crítico desse ponto: ele observa com preocupação o fato de pessoas não preparadas se sentirem autorizadas a participar de decisões importantes sem reconhecer a própria falta de conhecimento. Para ele, escolher quem menos sabe pode se tornar uma espécie de suicídio coletivo.
E aqui está talvez a dimensão política mais séria dessa discussão.
Uma pessoa pode ser ignorante sobre determinado assunto e continuar vivendo sua vida sem grandes consequências. Mas quando a ignorância passa a ser celebrada como virtude e transformada em critério para escolhas que afetam toda uma sociedade, o problema muda de tamanho. Não é mais apenas “cada um acredita no que quiser'. As decisões de um indivíduo podem atingir milhares de outros.
A ignorância pode determinar votos, políticas, comportamentos, julgamentos, preconceitos, perseguições e escolhas coletivas.
É por isso que a democracia precisa de cidadãos, não apenas de espectadores. E essa é outra crítica importante presente no pensamento recente de Valter Hugo Mãe: ele chama atenção para uma sociedade cada vez mais passiva, que recebe enormes quantidades de informação, mas não necessariamente as transforma em conhecimento ou responsabilidade.
Talvez estejamos nos tornando espectadores da própria vida. Assistimos. Comentamos. Compartilhamos. Reagimos. Indignamo-nos. Mas pensamos pouco. E pensar dá trabalho. Pensar exige interromper o fluxo. Exige sair da avalanche de opiniões e ficar sozinho diante de uma pergunta. Exige suportar o silêncio que vem antes de uma resposta. Exige reconhecer que talvez a nossa primeira reação esteja errada. Talvez por isso o ignorante por opção seja tão barulhento. O barulho evita o silêncio necessário para pensar.
Ele precisa falar porque, se parar, talvez descubra que não sabe. Precisa afirmar porque a dúvida o ameaça. Precisa atacar porque a argumentação lhe falta. Precisa transformar o outro em inimigo porque não consegue enfrentar a própria insegurança.
E existe ainda uma consequência especialmente desagradável: começamos a conviver com pessoas que se orgulham de não saber. “Eu não leio.' “Não gosto de estudar.' “Não preciso entender disso.' “Eu sou assim.' “Não quero saber o que os especialistas dizem.' “Para mim é assim e acabou.'
Essas frases, isoladamente, podem parecer apenas manifestações de personalidade. Mas quando se acumulam e passam a representar uma recusa sistemática ao conhecimento, revelam algo maior. Revelam desistência intelectual. E talvez não haja nada mais triste do que alguém desistir de aprender enquanto ainda está vivo.
Porque aprender é uma das maneiras mais bonitas de permanecer vivo por dentro.
Aprender nos obriga a reconhecer que o mundo é maior do que nós. Que existem pessoas que sabem coisas que não sabemos. Que existem experiências que não vivemos. Que existem histórias que desconhecemos. Que existem perspectivas capazes de modificar aquilo que acreditávamos ser definitivo.
A pessoa verdadeiramente inteligente não é aquela que tem resposta para tudo. É aquela que sabe fazer perguntas melhores. É aquela que consegue dizer: “Eu não tinha pensado por esse lado.' É aquela que consegue ouvir uma pessoa de quem discorda. É aquela que consegue mudar de posição sem sentir que perdeu dignidade. É aquela que não precisa transformar cada conversa numa disputa. É aquela que consegue reconhecer: “Eu estava errado.' Essa frase, tão pequena, exige uma grandeza que muitos não têm.
Porque admitir o erro é abrir mão de uma pequena parte do ego para ganhar uma parte maior de consciência.
E talvez seja exatamente isso que Valter Hugo Mãe esteja nos lembrando quando diferencia a ignorância humilde da ignorância orgulhosa. Não há problema em não saber. O problema é fazer da falta de saber uma bandeira. O problema é transformar a ignorância em autoridade. O problema é exigir que o conhecimento se curve diante daquilo que não queremos aprender. Não precisamos saber tudo. Mas precisamos permanecer disponíveis para aprender.
Essa talvez seja a fronteira que separa a ignorância humana da estupidez voluntária.
Todos somos ignorantes em alguma coisa. Todos temos pontos cegos. Todos carregamos preconceitos que talvez ainda não tenhamos percebido. Todos podemos estar errados. Todos podemos descobrir amanhã que uma certeza de hoje era apenas uma interpretação equivocada.
A diferença está no que fazemos quando descobrimos. Alguns crescem. Outros dobram a aposta. Alguns perguntam. Outros atacam. Alguns estudam. Outros inventam. Alguns mudam. Outros transformam a própria rigidez em identidade.
E talvez seja por isso que o título de Valter Hugo Mãe, O Século dos Imbecis, seja tão provocador. Não é simplesmente uma provocação contra pessoas que não sabem. É uma crítica a uma sociedade que parece cada vez mais disposta a premiar a simplificação, a certeza vazia, a opinião sem fundamento e a recusa deliberada do conhecimento. A própria apresentação da obra pela editora destaca justamente essa ideia: a persistência de certezas mesmo quando a realidade insiste em contrariá-las.
O que está em jogo, portanto, não é apenas o direito de cada um de acreditar no que quiser.
É a nossa capacidade coletiva de distinguir crença de fato, opinião de conhecimento, convicção de evidência, liberdade de irresponsabilidade.
Porque talvez o contrário da ignorância não seja simplesmente o conhecimento. Talvez seja a curiosidade. A curiosidade mantém a porta aberta. A arrogância fecha.
E quando uma pessoa fecha todas as portas para aquilo que pode contrariar suas certezas, nenhuma quantidade de informação conseguirá alcançá-la.
Ela não está sem acesso ao conhecimento. Ela está recusando o conhecimento. E essa é a parte mais assustadora. Não estamos diante de pessoas que não tiveram oportunidade de saber. Estamos, muitas vezes, diante de pessoas que tiveram a oportunidade e escolheram não saber.
E quando a ignorância se orgulha de ser ignorante, ela deixa de ser apenas ausência de conhecimento. Ela passa a ser uma escolha. E, quando uma escolha é defendida como virtude, a ignorância já não pede desculpas por existir.
O pior ignorante é o ignorante por escolha.
(*) Cristiane Lang é psicóloga clínica especialista em Oncologia pelo Instituto Albert Einsten em SP.
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