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A mãe desnecessária: o maior presente que você pode dar para seu filho
| CRISTIANE LANG (*) / CAMPO GRANDE NEWS
Existe uma contradição linda no coração da maternidade: a mãe que melhor ama é aquela que, aos poucos, aprende a não ser mais indispensável. Não porque abandonou seu papel, mas porque o cumpriu tão bem que seu filho aprendeu a caminhar sozinho. Tornar-se uma mãe desnecessária não é fracasso — é a mais alta forma de sucesso na criação de um filho.
O que Freud nos ensina sobre isso
Sigmund Freud, o pai da psicanálise, descreveu um processo chamado individuação: o caminho pelo qual uma criança, ao longo do tempo, vai se separando psicologicamente da mãe para construir a própria identidade. Para Freud, essa separação não é apenas saudável — ela é necessária. Uma criança que não consegue se diferenciar da mãe carrega, na vida adulta, dificuldades de autonomia, de relacionamentos e de autoestima.
Em linguagem simples: quando uma mãe não consegue soltar, o filho não consegue crescer de verdade. Ele pode até envelhecer fisicamente, mas carrega dentro de si uma criança que ainda espera permissão para existir. Isso aparece de formas muito concretas nos dias de hoje: o adulto que não consegue tomar decisões sem consultar a mãe, que sente culpa ao colocar seus próprios limites, ou que construiu relacionamentos onde repete esse padrão de dependência emocional.
Ser desnecessária não é ser ausente
Há uma confusão frequente aqui. Tornar-se desnecessária não significa abandonar, se afastar ou parar de amar. Significa algo muito mais sofisticado: ir gradualmente transferindo para o filho a responsabilidade sobre sua própria vida. Deixar que ele sinta fome e peça comida. Que ele sinta o frio antes de você já ter o casaco na mão. Que ele erre, que ele repare o erro, que ele aprenda que é capaz.
A mãe que antecipa tudo, que resolve tudo, que sofre no lugar do filho, envia uma mensagem silenciosa mas poderosa: 'você não é capaz de lidar com isso sozinho'. Com o tempo, o filho acredita nessa mensagem. A superproteção, por mais amorosa que pareça, é uma das formas mais sutis de diminuir alguém.
O que isso tem a ver com você?
Aqui chegamos a uma parte delicada e honesta: muitas vezes, a mãe que não consegue se tornar desnecessária está, na verdade, preenchendo uma necessidade própria. Ser imprescindível para os filhos pode ser uma forma de encontrar identidade, propósito ou valor pessoal — especialmente quando outros sonhos e desejos foram colocados de lado ao longo dos anos.
Isso não é um julgamento. É humano. Mas é um convite à reflexão: quando uma mãe cuida de si mesma, quando retoma seus sonhos, quando volta a existir além da maternidade, ela não está abandonando seus filhos. Ela está mostrando a eles, na prática, como se viver com plenitude. Está ensinando que é possível ser adulto e ainda ter desejos, vontades, identidade.
Uma mãe que viaja, que investe em si, que tem vida própria, não é egoísta. É, muitas vezes, o modelo mais poderoso de autoestima que um filho pode ter.
O paradoxo do amor que solta
O psicanalista Donald Winnicott, discípulo de Freud, usava uma expressão que ficou famosa: a 'mãe suficientemente boa'. Não a mãe perfeita. A suficiente. Aquela que está presente quando precisa estar, e que sabe se afastar quando o afastamento é o que o filho precisa para crescer.
Tornar-se desnecessária é, portanto, um ato de amor muito mais profundo do que a presença constante. É dizer ao filho, com cada espaço que você abre: 'Eu confio em você. Você é capaz. Você tem tudo o que precisa para ser quem você é.'
E talvez, no fundo, seja isso que toda mãe também precise ouvir sobre si mesma.
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