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Maratonista olímpico que ficou 43 dias desaparecido andou por 400 km e relata como sobreviveu
Daniel Nascimento afirma que caminhou do interior à capital paulista se alimentando de cana-de-açúcar, laranjas doadas e água; atleta vai iniciar tratamento psicológico
| GLOBOESPORTE.COM / GABRIEL CASTRO
Foi se alimentando de cana-de-açúcar, laranjas doadas por desconhecidos e água pedida em postos de combustíveis que o ex-maratonista olímpico Daniel Nascimento caminhou cerca de 400 quilômetros entre o oeste do estado de São Paulo e a capital paulista, durante boa parte dos 43 dias em que esteve desaparecido.
Em um vídeo gravado por um guarda da Guarda Civil Metropolitana (GCM), o ex-atleta, suspenso por doping, contou que caminhou até a capital paulista e explicou como conseguiu sobreviver durante o período.
— Só chupando uma cana. Pedi de vez em quando. Uma laranja ainda para chupar. E depois, quando passava perto do posto de gasolina, tinha que tomar uma água. Mas só levava uma garrafinha, depois tinha que jogar água. Chegou um momento que estava parecendo um camelo.
Daniel deixou a casa da mãe, em Paraguaçu Paulista, no dia 19 de junho, levando apenas uma mochila, a roupa do corpo e um boné. 43 dias depois, foi encontrado no bairro do Belém, em São Paulo, após ser reconhecido por um pedestre na rua Ubaldino do Amaral.
O homem acionou a Guarda Civil Metropolitana, que confirmou a identidade do atleta. Daniel aparentava estar bem fisicamente e foi encaminhado ao 30º Distrito Policial, no Tatuapé, onde reencontrou a família.
Durante o período em que permaneceu na capital, Daniel apresentava aspecto de morador em situação de rua. Segundo a família, ele recolhia materiais recicláveis para conseguir algum dinheiro e passava as noites em albergues públicos.
Até então, o que havia acontecido durante os dias em que esteve desaparecido era um mistério. No vídeo gravado pela GCM, Daniel também falou sobre a forma como observava o próprio corpo durante a caminhada, comparando a experiência com a rotina de um corredor.
— Estava igual ao camelo. É legal que eu conseguia estabilizar o corpo até para a questão de hidratação. É porque eu gosto de estudar você mesmo, até mesmo a sua própria mente. Igual quando você está dirigindo um carro aqui, você vai indo em uma estrada aqui, ele vai pisando, vai tranquilo. Agora o corredor não, você vai sentindo no corpo, você vai sentindo a brisa, o seu coração.
Após o reencontro, Daniel retornou ao convívio da família e foi encaminhado para uma clínica, onde iniciou tratamento psicológico. A expectativa é que, nos próximos dias, ele seja transferido para uma unidade no interior de São Paulo, próxima à casa da família, para dar continuidade ao acompanhamento.
A mãe do ex-maratonista, Walvirene, contou ao ge que Daniel passou a enfrentar problemas psicológicos após a suspensão por doping. Segundo ela, o afastamento das pistas desencadeou um quadro de depressão que culminou no desaparecimento.
Em outro trecho do vídeo, o próprio Daniel falou sobre a relação que tinha com o atletismo.
— Era uma coisa que eu mais amava, que eu sentia, sim. É o que me fazia acordar todo dia de manhã cedo. Você poder gastar a energia e pode retornar para a sua casa.
Emocionada, Walvirene também falou sobre o filho após o reencontro.
— É… Esse aqui é o mais parecido comigo, né? Forte, guerreiro, né? Esperto.
Relembre o caso
Daniel estava desaparecido desde o dia 19 de junho. Cerca de um mês depois, a família recorreu às redes sociais para pedir informações sobre o paradeiro do atleta. No dia seguinte à publicação, o maratonista completou 28 anos, sem conseguir comemorar a data ao lado dos familiares.
A partir daí, uma corrente de compartilhamentos tomou conta das redes sociais na tentativa de localizar o corredor, que morava com a mãe em Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo. Ele deixou a casa da família levando apenas uma mochila e, desde então, não havia dado notícias.
Segundo a família, Daniel enfrenta um quadro de depressão desde o caso de doping que interrompeu sua carreira em 2025. O afastamento das pistas desencadeou o agravamento do quadro psicológico, que culminou no desaparecimento. O atleta foi suspenso por cinco anos, com punição retroativa a 15 de julho de 2024, e só poderá voltar às competições em 2029.